O Coletivo Torttto é uma iniciativa que oferece espaços de vivências coletivas e compartilhadas em arte, principalmente àqueles que se encontram à margem da normatividade. A coletividade, segundo compreendemos, é o caminho seguro para a construção de redes de apoio e resistência a um sistema que oprime mulheres, pessoas trans, com deficiência, pobres, negras, indígenas e imigrantes, entre tantos outros que são impedidos de existir com abundância. Por sermos quem somos — um coletivo autogerido em busca de aplicar valores coletivos a nosso funcionamento interno —, gostamos de pensar a curadoria de nossas exposições a partir de fontes que propõem a abundância a partir do compartilhamento.
A existência radicalmente compartilhada é um dos princípios desenvolvidos pela teoria do micélio, da autora Donna Haraway, em seu livro Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno (2016). Para Haraway,o micélio não é apenas um fungo sobre a terra, mas um paradigma ético e estético que ensina os seres humanos a convivência entre si e outras espécies. Nessa coexistência, há interdependência, relações de harmonia e também de conflito, ou seja, uma coabitação com as diferenças e os problemas ao invés da tentativa de erradicá-los. O pensamento de Haraway combate o antropocentrismo, nos lembrando que a vida acontece em rede. Geni Núñez, a partir de outra perspectiva e em diálogo complementar com Donna Haraway, aponta o colonialismo como causa da devastação da coexistência entre seres humanos e a natureza, sendo responsável também pela violência sistêmica contra povos indígenas. Geni propõe o "reflorestamento do imaginário”: uma restauração simbólica dessa interdependência. Reflorestar, nesse sentido, significa reabrir a capacidade de imaginar futuros possíveis para nossa existência atual, descolonizar a mentalidade e reaprender nossos modos de existência com os territórios.
Sobre a proposta: Nossa proposta com a exposição Contaminações é criar um ecossistema, onde as relações de troca entre pessoas, seres e entornos do Torttto ganharão vida durante os dias de exposição. Pensamos que a melhor maneira de trazer essa vivência seria recebendo trabalhos colaborativos, não centrados em uma autoria única, mas sim uma proposta de intervenção aberta, onde os propositores da obra e o público são co-autores.
Também serão bem-vindas propostas que repensem uma coabitação com o problema ao invés de erradicá-los — por exemplo, trabalhos realizados com lixo, sucata, restos de máquinas e outros resquícios, que destinem outras finalidades a estes materiais.
A quem é realizado esse convite? O convite é aberto a artistas, a não-artistas e a todo público interessado por arte, que queira realizar proposições de convivência em nosso espaço (arte-educadores, oficineires, e pessoas de outras áreas do conhecimento que se interessem por nossa proposta). O formato das propostas pode ser variado: instalações distribuídas no espaço; trabalhos que possam se conectar entre si e com os outros ao redor; e produções colaborativas e que possam dialogar com o ambiente interno e/ou externo do Estúdio Torttto.